11 abril 2006

Rubem Braga: cerca de 15000 crônicas! Que tal começarem?

Pessoal, um excerto de um texto interessante "Fazendeiro do ar" sobre Rubem Braga, publicado na revista Vida Simples. Clique no título e leia a matéria completa através do link.

(...)
O fácil é difícil

Na sua limpidez, o texto do cronista maior pode dar aos desavisados a ilusão de serem também eles capazes de escrever algo assim.Trata-se daquilo que o poeta Hélio Pellegrino chamou de “a difícil arte de escrever fácil”. Tecidas sem pompa ou grandiloqüência, as crônicas de Rubem Braga são feitas de palavras simples ­ não por acaso, ele achava que um dos versos mais belos da língua portuguesa é este decassílabo, sem qualquer enfeite, de Luís de Camões: “A grande dor das coisas que passaram”.
Numa crônica de 1958, ele conta que andou lendo livros sobre pavões, e neles descobriu que “aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas”. E conclui, encantado: “Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade”.
Poderia estar falando dele mesmo, Rubem Braga.

01 abril 2006

Cláudio Abramo


"Jornalismo é a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter."

Cláudio Abramo

(1923-1987)

Para pensarmos ...

Após a leitura de Ensaio sobre a cegueira, muitas reflexões são necessárias... Analisem o texto a seguir e tracem um paralelo entre ambas as obras.

A mudança
Carlos Drummond de Andrade

O homem voltou à terra natal e achou tudo mudado. Até a igreja mudara de lugar. Os moradores pareciam ter trocado de nacionalidade, falavam língua incompreensível. O clima também era diferente.

A custo, depois de percorrer avenidas estranhas, que se perdiam no horizonte, topou com um cachorro que também vagava, inquieto, em busca de alguma coisa. Era um velhíssimo animal sem trato, que parou à sua frente. Os dois se reconheceram: o cão Piloto e seu dono. Ao deixar a cidade, o homem abandonara Piloto, dizendo que voltaria breve, e nunca mais voltou. O animal inconformado procurava-o por toda parte. E conservava uma identidade que talvez só os cães consigam manter, na Terra mutante. Piloto farejou longamente o homem, sem abanar o rabo. O homem não se animou a acariciá-lo. Depois, o cão virou as costas e saiu sem destino.

O homem pensou em chamá-lo, mas desistiu. Afinal, reconheceu que ele próprio tinha mudado, ou que talvez só ele mudara, e a cidade era a mesma, vista por olhos que tinham esquecido a arte de ver.

(ANDRADE, Carlos Drummond de.Contos plausíveis. Rio de Janeiro, José Olympio, 1985, p.30.)

Ou isto ou aquilo



"Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares."


Cecília Meireles
(Ou isto ou aquilo)

Oh, captain, my captain!!!

" Estou em pé na minha mesa para me lembrar de que devemos ver as coisas constantemente de um modo diferente. Quando vocês pensam que sabem alguma coisa, precisam ver de uma outra maneira, ainda que pareça bobagem ou errado. Quando lerem, não considerem apenas o que o autor acha. Considerem o que vocês acham. Vocês devem procurar encontrar suas próprias vozes. Quanto mais esperarem para começar, menos chances terão de encontrar. Carpe diem, aproveitem o dia. Tornem suas vidas extraordinárias!"
frase do professor aos alunos no filme Sociedade dos Poetas Mortos

20 março 2006

Frase do dia após a aula de hoje ( difícil pela falta de leitura do texto)

" Nenhum vento pode ajudar um barco que não sabe para onde vai."


Nova tarefa:

Consulte o texto Hoje bebi na fonte (clique no link) e comentem as pérolas de Balzac.


Boa noite!

Alena

14 março 2006

Este é o texto para a próxima etapa da discussão. Após lermos as Cartas à redação de Capitães da Areia (Jorge Amado), aprofundaremos nossos estudos a partir do texto de Calvino. Pensemos na questão do ponto de vista.

PALOMAR NA PRAIA
Leitura de uma onda

ITALO CALVINO


O mar está levemente encrespado e pequenas ondas quebram na praia arenosa. O senhor Palomar está de pé na areia e observa uma onda. Não que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe bem o que faz: quer observar uma onda e a observa. Não está contemplando, porque para a contemplação é preciso um temperamento conforme, um estado de ânimo conforme e um concurso de circunstâncias externas conforme: e embora em princípio o senhor Palomar nada tenha contra a contemplação, nenhuma daquelas três condições, todavia, se verifica para ele. Em suma, não são "as ondas" que ele pretende observar, mas uma simples onda e pronto: no intuito de evitar as sensações vagas, ele predetermina para cada um de seus atos um objetivo limitado e preciso.

O senhor Palomar vê uma onda apontar na distância, crescer, aproximar-se, mudar de forma e de cor, revolver-se sobre si mesma, quebrar-se, desfazer-se. A essa altura poderia convencer-se de ter levado a cabo a operação a que se havia proposto e ir-se embora. Contudo, isolar uma onda da que se lhe segue de imediato e que parece às vezes suplantá-la ou acrescentar-se a ela e mesmo arrastá-la é algo muito difícil, assim como separá-la da onda que a precede e que parece empurrá-la em direção à praia, quando não dá até mesmo a impressão de voltar-se contra ela como se quisesse fechá-la. Se então considerarmos cada onda no sentido de uma amplitude, paralelamente à costa, será difícil estabelecer até onde a frente que avança se estende contínua e onde se separa e se segmenta em ondas autônomas, distintas pela velocidade, a forma, a força, a direção.

Em suma, não se pode observar uma onda sem levar em conta os aspectos complexos que concorrem para formá-la e aqueles também complexos a que essa dá ensejo. Tais aspectos variam continuamente, decorrendo daí que cada onda é diferente de outra onda; mas da mesma maneira é verdade que cada onda é igual a outra onda, mesmo quando não imediatamente contígua ou sucessiva; enfim, são formas e seqüências que se repetem, ainda que distribuídas de modo irregular no espaço e no tempo. Como o que o senhor Palomar pretende fazer neste momento é simplesmente ver uma onda, ou seja, colher todos os seus componentes simultâneos sem descurar de nenhum, seu olhar se irá deter sobre o movimento da água que bate na praia a fim de poder registrar os aspectos que a princípio não havia captado; tão logo se dê conta de que as imagens se repetem, perceberá que já viu tudo o que queria ver e poderá ir-se embora.
Homem nervoso que vive num mundo frenético e congestionado, o senhor Palomar tende a reduzir suas próprias relações com o mundo externo e para defender-se da neurastenia geral procura manter tanto quanto pode suias sensações sob controle.

A crista da onda vindo para a frente ergue-se num determinado ponto mais do que nos outros e é ali que começa a se preguear de branco. Se isto acontece a certa distância da praia, a espuma tem tempo de revolver-se sobre si mesma e desaparecer de novo como que tragada e no mesmo momento tornar a invadir tudo, mas desta vez surgindo de baixo, como um tapete branco que soergue a fímbria para acolher a onda que chega. Porém, quando se espera que a onda role sobre o tapete, damo-nos conta de que já não existe mais a onda, mas apenas o tapete, e mesmo esse rapidamente desaparece, torna-se uma cintilação da areia alagada que se retira veloz, como se para contê-lo houvesse um expandir-se da areia seca e opaca avançando seu rebordo ondulado.

Ao mesmo tempo precisa-se considerar as reentrâncias da frente, em que a onda se divide em duas alas, uma que tende em direção à praia da direita para a esquerda e outra da esquerda para a direita, e o ponto de partida ou de chegada dessa divergência ou convergência é aquela ponta em negativo que segue o avançar das alas mas sempre se mantendo um pouco atrás e sujeita ao sobrepor-se alternado delas, para que não venha a ser alcançada por uma outra onda mais forte embora também esta com o mesmo problema de divergência-convergência, ou talvez por outra ainda mais forte que resolva o impasse rompendo o nó.

Tomando como modelo o desenho das ondas, a praia avança na água pontas apenas esboçadas que se prolongam em bancos de areia submersos, como as correntes os formam e desfazem a cada maré. Foi uma dessas línguas baixas de areia que o senhor Palomar escolheu como ponto de observação, porque as ondas nelas batem obliquamente de uma parte e de outra, e ao cavalgarem por cima da superfície semi-submersa vão encontrar-se com as que chegam da outra parte. Assim, para se compreender como uma onda é feita é necessário ter-se em conta esse impulso em direções opostas que em certa medida se contrabalançam e em certa medida se somam, e produzem um quebrar geral de todos os impulsos e contra-impulsos no mesmo alagar de espuma.

O senhor Palomar está procurando agora limitar seu campo de observação; se tem presente um quadrado de, digamos, dez metros de praia por dez metros de mar, pode levantar um inventário de todos os movimentos de ondas que ali se repetem com freqüência variada dentro de um dado intervalo de tempo. A dificuldade está em fixar os limites desse quadrado, porque, por exemplo, se ele considera como o lado mais distante de si a linha em relevo de uma onda que avança, essa linha ao aproximar-se dele irá, erguendo-se ocultar de sua vista tudo o que está atrás; e eis que o espaço tomado para exame se destaca e ao mesmo tempo se comprime.

Contudo, o senhor Palomar não perde o ânimo e a cada momento acredita haver conseguido observar tudo o que poderia ver de seu ponto de observação, mas sempre ocorre alguma coisa que não tinha levado em conta. Se não fosse pela impaciência de chegar a um resultado completo e definitivo de sua operação visiva, a observação das ondas seria para ele um exercício muito repousante e poderia salvá-lo da neurastenia, do infarto e da úlcera gástrica. E talvez pudesse ser a chave para a padronização da complexidade do mundo reduzindo-a ao mecanismo mais simples.

Mas todas as tentativas de definir este modelo devem levar em consideração uma onda que sobrevêm em direção perpendicular ao quebra-mar e paralela à costa, fazendo escorrer uma crista contínua e apenas aflorante. Os saltos das ondas que se desgrenham para a praia não perturbam o impulso uniforme dessa crista compacta que a corta em ângulo reto sem que se saiba para onde vai nem de onde vem. Pode ser um fio de vento do nascente que move a superfície do mar em sentido transversal à corrida profunda que vem das massas de água do largo, mas essa onda que nasce do ar recolhe de passagem também os impulsos oblíquos que nascem da água e os desvia e os corrige em seu sentido levando-os consigo. Assim vai continuando a crescer e a tomar forma para que o encontro com as ondas contrárias não a amorteça aos poucos até fazê-la desaparecer, ou então a força até fazê-la confundir-se numa das tantas dinastias de ondas oblíquas, levada à praia com as outras.

Prestar atenção em um aspecto faz com que este salte para o primeiro plano, invadindo o quadro, como em certos desenhos diante dos quais basta fecharmos os olhos e ao reabri-los a perspectiva já mudou. Além do mais nesse entrecruzar-se de cristas diversamente orientadas o desenho de conjunto se torna fragmentado em espaços quadrados que afloram e se desvanecem. Acresce que o refluxo de cada onda também possui uma força que se opõe às ondas supervenientes. E se concentrarmos a atenção nesses impulsos retroativos vai nos parecer que o verdadeiro movimento é aquele que parte da praia em direção ao largo.

Será que o verdadeiro resultado a que o senhor Palomar está prestes a chegar é o de fazer com que as ondas corram em sentido oposto, de recuar o tempo, de discernir a verdadeira substância do mundo para além dos hábitos sensoriais e mentais? Não, ele chega até a experimentar um leve sentido de reviravolta, mas é tudo. A obstinação que impulsiona as ondas em direção à costa já ganhou a parada: de fato, elas aumentaram bastante. O vento estaria mudando? É pena que a imagem que o senhor Palomar havia conseguido organizar com tanta minúcia agora se desfigure, se fragmente e se perca. Só conseguindo manter presentes todos os aspectos juntos, ele poderia iniciar a segunda fase da operação: estender esse conhecimento a todo o universo.

Bastaria não perder a paciência, coisa que não tarda a acontecer. O senhor Palomar afasta-se ao longo da praia, com os nervos tensos como havia chegado e ainda mais inseguro de tudo.

FONTE: CALVINO, Italo. Palomar.tradução de Ivo barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p.7-11.



13 março 2006

Nas horas vagas de livre exercício de navegação à deriva na net,
achamos garrafas com mensagens ...

A propósito de nossas aulas, explorem este site:

http://www.ambienteimagem.com.br/cidades.html

Penso em fazermos algo semelhante sobre a cidade de Salvador.

Imaginem textos, crônicas ou poemas, e fotografias sobre os temas sugeridos.

Até...
Bom passeio cultural!

Alena

12 março 2006

Um poema de Drummond para nos estimular:

A palavra mágica

Carlos Drummond de Andrade


Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
Nossa primeira leitura:

Ensaio sobre a cegueira, uma alegoria da vida humana em tempos modernos, ou talvez de todos os tempos, é um convite à reflexão sobre as miudezas do comportamento, caráter e das relações humanas. Sua epígrafe, extraída do Livro dos Conselhos, é uma convocação: " Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara".
A obra é uma intimação sensível ao leitor que o faz ficar face a face com o que possui de mais essencialmente humano: "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome. Essa coisa é o que somos." Assim, se apresenta como um descortinar das profundezas humanas, um convite à visão interior e à mais clara consciência do estar no mundo. É impossível passar pela obra sem sentir um profundo incômodo. Feche os olhos e veja: é o recado que impera.
Obra recomendada :

Em Uma História da Cidade da Bahia, você poderá travar contato especialmente com uma das possiveis histórias além dos limites do que conta a versão oficial conhecida nas escolas. Outros pontos de vista aparecem sobre cada um dos séculos da formação da Bahia.
O autor se pautou pela compreensão dos fatos e dos sujeitos históricos para além dos preconceitos, não pretendeu ser a verdade absoluta das coisas, mas uma verdade, desfez-se de pretensões de originalidade e bebeu na fonte de pesquisadores e historiadores, atentando para que não confundisse o leitor com tantos outros possíveis ângulos de interpretação.

Dos primórdios que os sambaquis revelam sobre a ocupação de outros povos pré-colônia até a revolta do busú já no terceiro milênio, o livro nos convida a uma profunda reflexão sobre outras possibilidades de interpretação da colonização lusitana em terras brasileiras. Um rico panorama social, político e histórico se descortinará aos leitores.

Leitura recomendada :

Em Ensaios de risco, vocês travarão contato com a literatura de Otávio Frias Filho. Segundo o autor, seus ensaios são "investigações participativas"que, ao mesmo tempo, representam "descidas até os círculos do inferno pessoal". São sete ensaios: Queda livre, Viagem ao Mapiá, A bordo do Tapajó, O terceiro sinal, No caminho das estrelas, Casal procura e O abismo. A obra resulta de uma série de experiências pessoais do autor e constitui-se como um diálogo inteligente e revelador sobre os próprios limites e medos. (Companhia das Letras, 2003)

11 março 2006

Oi, pessoal !!!

Esta é a nossa página de estudos e viagens…
Página para ler, para comentar, para aprender…
para ensinar, para nos perdermos e … nos acharmos!!!
Aqui, os textos da aula, outros textos… biografias, links, resenhas, poesias etc. (et cetera não é uma expressão latina linda? Infinita em possibilidades! )
Haverá crônicas, artigos e ensaios sempre.
A gente se vê na faculdade e se encontra mais ainda por aqui .


Um beijo
Alena